Texto publicado originalmente em 2002: Delírios em prosa poética

29/11/2002

Saudações, mentes ansiosas! Desta vez resolvi fazer jus ao nome da coluna compartilhando convosco verdadeiros delírios. Não perguntem sobre sentido ou significado, apenas leiam e sintam.

Reverências

Lucas Villa

***

Abri os olhos, ela ainda estava lá. Vomitava turbilhões de azul em labaredas gélidas. Suas órbitas projetadas como mísseis apontavam o céu como se fora seu único destino, sua meta e alvo. Era noite, mas o sol ainda nos observava à distância.

As moscas beliscavam meus calcanhares, ela me olhava e sorria, despretensiosa. O ar era pesado e meu peito era leve e vazio. Fumaça por todos os lados, o cinza talhava bocas e línguas no firmamento, meus dedos ficavam gelados e seus ouvidos pareciam sumir entre os cabelos sem cor. Os lábios dela se moviam, mas eu não conseguia ouvir sua voz.

O tempo não existe, sussurrava a enorme borboleta que nos sobrevoava insistentemente, deixando cair sobre nós um pólen dourado de aroma doce. Eu tocava o pó, suspenso no ar, e por vezes o levava até a boca, onde ele se tornava mel e me adormecia os lábios e a língua. Agora ela corria como uma criança, se erguia e pisava sobre sua própria cabeça, usando-a como degrau. Atingia alturas incríveis.

Eu queria tentar também. A noite era bela e eu só queria me sentir bem. Eu sabia, ela sabia, as moscas, a borboleta, a fumaça e as labaredas também sabiam o quanto aquilo me fazia sentir bem. No fundo, creio que era ela que me fazia sentir assim, o demais advinha como natural conseqüência.

Tentei pisar minha cabeça, mas a senti deveras lisa.

Ela abriu a janela e saiu, fazendo sinal para que eu a seguisse, mas ao tentar sair a janela fechou-se repentinamente e na parede a ela diametralmente oposta abriu-se uma enorme boca, com lábios azuis, dentes enormes e uma língua esverdeada e comprida. A misteriosa fauce me aspirou e de repente eu já estava naquela gigantesca garganta. Quando a boca se fechou, tudo era escuridão.

***

Agora havia um deserto, e ela não estava lá. Ao chão eu pisava grãos de areia cor de rosa, gelados e brilhantes. Havia dunas e mais dunas, e no topo de cada duna uma árvore, sempre ressequida, sem folhas ou frutos. Algo me tocou ao ombro.

- A voz da sonolência grita aos ouvidos doutos.

Era Verfasung, vestido em sua jaqueta de faces, saltitando como um coelho manco, com seu rosto que era uma só cicatriz. Sua pele era seca e murcha, rente aos ossos, ostentava máculas por todo o corpo, era magro e se movia com leveza, ainda que de forma desajeitada. Era a contradição viva da natureza e ao chão que pisava brotavam sempre lírios lívidos e molhados.

Quando os lírios brotam a dor parece liquefeita, podemos senti-la molhando a boca e escorrendo pela garganta. Um lírio é sempre um lírio, mas a dor nem sempre é dor. Há casos em que a dor também é lírio.

Distraí-me com o vento e o som das crianças brincando, quando dei por mim Verfasung sumira. Segui pela estrada de lírios, por entre vales e montanhas de areias púrpuras.

***

O fim da existência é um segundo doce e silencioso. Não há que se ouvir músicas ou vozes, não há que se ver mais que as próprias pálpebras.
E quando a vida acaba, continua a mesma.
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About Fábio Pitombeira

Trabalha desde 2002 com produção de shows em Teresina. Teve a oportunidade de trabalhar com grandes nomes do Heavy Metal e Rock and Roll como Paul Di Anno, Ira!, Hangar, Angra, Shaman, Andralls, Drowned, Clamus, Dark Season, Megahertz, Anno Zero, Empty Grace, Morbydia, Káfila, entre outros.

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