Dercy Gonçalves, Krow, Obtus e Captalistic Death no Bueiro

Mudanças. Toda cena que se preza necessita de novos espaços, novas bandas, novos lançamentos, e até mesmo (por que não?) novos parâmetros pra medir a si mesma. Há alguns dias conversava com um amigo que já foi tudo no cenário local (músico, dono de espaço, produtor, fomentador e até analista de estrela) sobre o tímido número de presentes aos eventos de rock autoral na cidade. Ele me chamou a atenção para o fator de parecermos estar passando uma espécie de 'ressaca'. Mas e se não for ressaca? E se for morte cerebral?

[caption id="attachment_11364" align="alignnone" width="550"]Obtus. Crédito da foto: Fernando CB Obtus. Crédito da foto: Fernando CB[/caption]

Vejamos a seguinte comparação. Milhares de turistas vão litoral do estado algumas muitas vezes por ano, principalmente em feriados prolongados (não vamos discutir aqui a estrutura que encontram, ou não, por lá, não vem ao caso aqui). Chegando lá apreciam uma iguaria que, não por acaso, também apreciam aqui tão longe do mar: caranguejos. Calculemos apenas com a imaginação o quanto é consumido desses bichinhos em uma semana ou quinzena de um período de férias, tipo julho. Caranguejo pra burro! Agora pense de onde vem tanto caranguejo. É preciso que haja uma freada no consumo pra que os bichinhos se reproduzam e possam dar continuidade à comilança dos seus apreciadores, certo? Pra isso é preciso que seja combatida a cata predatória e que sejam preservados os ambientes propícios à sua reprodução.

A cena rock de Teresina, agora, março de 2013, não está conseguindo fazer sua 'piracema'. Não há espaços pra que novas bandas mostrem seus trabalhos, não há expectativas de mercado em botar trabalhos novos, mesmo que de forma digital, no nosso minimercado de cultura rock. Está em alta a vampirização de um formato que atraí pela facilidade de trabalhar o que já está massificado, mastigado e embutido no consciente coletivo dos pretensos pagantes. Mas a mudança, a renovação, a virada de página, ainda é possível? Sim! Quando pensaríamos que em uma Sexta-Feira da Paixão, auge da Semana Santa, algumas almas viventes ainda iriam a um show, e fora do centro? Mudanças são gradativas e se chegam pra melhor, são logo percebidas.

O Bueiro do Rock não é mais novidade na noite teresinense, vamos ser bem francos. Já passou disso, é uma das melhores casas de show do Nordeste. Não oferece camarins luxuosos nem neons cintilantes, mas dá som e luz de primeira à muitas bandas locais que não tem espaço pra tocar em outros points da cidade, e muitas dessas bandas ainda correm o risco de 'debutar' nos palcos abrindo pra bandas de outros estados, tendo assim o parâmetro necessário para ter uma real posição de seu trabalho, um santo empurrãozinho na autocrítica. Alguns segredos do local são mais que latentes: Investimento em estrutura, som, luz, dependências, tratamento básico (ou seja, profissional) tanto pras bandas locais quanto para as de fora; mas o principal mesmo é invisível a olho nu. O amor em vestir a camisa, todos os segundos do dia, da família que mantém o Bueiro funcionando. Dedicação, pra resumir em uma palavra.

[caption id="attachment_11367" align="alignnone" width="550"]Krow. Crédito da foto: Fernando CB Krow. Crédito da foto: Fernando CB[/caption]

Vejamos a escalação da noite desta sexta, 29 de março: Capitalistic Death, os donos da casa, prestes a gravar um CD lá mesmo, ali embaixo do palco, em estúdio próprio. São o principal produto da 'griffe' Bueiro do Rock. Obtus, mesmo desfalcados do baixista tiveram duas sábias atitudes, a de não pular fora do show e a de deslocar um dos guitarristas para o contrabaixo. Muitíssimo resolvidos, fizeram um show tranquilo (dentro do que um show deles pode ser chamado de 'tranquilo') e com direito até à músicas inéditas. Fechando a noite, o death/thrash do Krow (MG) e o crustcore do Dercy Gonçalves (PA), mais duas bandas de fora que vem e saem espantadas com a estrutura e o profissionalismo, das bandas, da casa e das produções. Com certeza chegarão ao próximo show da tour ainda impressionados e falando bem de Teresina e assim será até voltarem pra casa, fazendo o bom nome da cidade no circuito.

O que Teresina e o seu rock precisam, hoje, é de mais bueiros. Mais locais que sirvam de nascedouros para novos talentos, o resto é efeito dominó, a quantidade e a qualidade geram a demanda, não precisa ser PhD em administração pra sacar isso. Assim a renovação acontece, espontânea e naturalmente. E se você ainda acha que tudo que foi dito aqui do Bueiro ou do trabalho das bandas é pura viagem, experimente comparecer ao próximo show agendado por lá e confira ao seu redor. Pague, literalmente, pra crer.
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About Fábio Pitombeira

Trabalha desde 2002 com produção de shows em Teresina. Teve a oportunidade de trabalhar com grandes nomes do Heavy Metal e Rock and Roll como Paul Di Anno, Ira!, Hangar, Angra, Shaman, Andralls, Drowned, Clamus, Dark Season, Megahertz, Anno Zero, Empty Grace, Morbydia, Káfila, entre outros.

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