Review: Gangrena Gasosa – Se Deus é 10, Satanás é 666

Não é Spinal Tap, nem Massacration. Não é sátira. É a volta da Gangrena Gasosa, banda que começou suas atividades lá nos anos 1990, trazendo pra realidade do Brasil o metal negro que era feito lá fora. Vamos poupar aqui as teses oswaldianas sobre antropofagismo cultural.

A pergunta que Chorão³ e cia fizeram há quase vinte anos continua valendo: Por que mexer com os guanxumões de fora se tem os capirotos daqui? Sai o paganismo gringo e entram os ziquizilas da afro brasilidade. Nascidos e crescidos na Baixada Fluminense, não foi difícil alinhavar os elementos e botar o Gangrena pra tocar em todos os buracos do underground carioca dos ano 90, como o Circo Voador ou o Garage, um muquifo na rua Ceará, próximo ao baixo meretrício da Vila Mimosa (ou “mangue” como chamam os cariocas).

Free Mind Media - Tamborete Ent. - Karasu Killer Recs.

Free Mind Media – Tamborete Ent. – Karasu Killer Recs.

O Gangrena debutou em CD com “Welcome to Terreiro” (Rock It! Discos, selo do legionário Dado Villa-Lobos), em 1991 , produzidos por André X (Plebe Rude) e angariou fãs como os irmãos Cavalera, que na época deram o Ok na faixa “Troops of Olodum”. Considerando que “Roots” só sairia em 96, capaz do GG ter dado o empurrãzinho que faltava pro Sepultura deixar a vêia da brasilidade se manifestar.

Passou um bom tempo até que, já com outra formação (agora com Angêlo Arende, ex Dorsal Atlântica nos vocais), o GG desse as caras novamente em CD, dessa vez com “Smells Like a Tenda Espírita”, pela Tamborete Entertainment, em 1996, sem perder a verve de subverter a ‘malevolência’ em nome da ‘malemolência’, agora com auxílio de percussão ao vivo e títulos como “Centro do Picapau Amarelo” e “Headbanger Voice” (uma homenagem à sessão destinada aos anúncios e ‘desabafos’ na revista Rock Brigade). “Smells…” também foi o trabalho que abriu as portas de uma turnê européia ao GG e para a inclusão da versão para “Vida Ruim” (vertida para “Curimba Ruim”) dos Ratos de Porão no disco tributo “Traidô”.

Surpreendentemente, logo após, a banda se dissolve. 2006 marca uma tímida volta do GG, dessa vez com o EP virtual “6/6/6”, agora com Renzo (Ex DFC) na bateria. Com apresentações ao vivo marcadas por uma forte teatralidade (a palavra ‘encorporação’ podia ganhar outro sentido aqui) o GG volta com “Se Deus é 10, Satanás é 666”, num esforço conjunto da Free Mind Media-Tamborete-Karasu Killer (Jap.).

A temática das letras alargou um pouco, mas o jeitinho Gangrena continua lá. Títulos como “Eu Não Entendi Matrix”, “Chuta Que é Macumba”, “Quem Gosta de Iron Maiden Também Gosta de KLB” e uma versão de “Fist Fuck Agrédi” (de “Welcome to Terreiro”) atestam a capacidade do GG em reafirmar seu propósito de reciclar o bom e velho metal negro de um jeitinho bem brasileiro: regado à cachaça e farofa.

Quem é Fernando CB ?

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